Neste 10 de setembro, Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, a Assojaf-RS chama a atenção para a importância do cuidado permanente com a saúde mental dos Oficiais de Justiça. Expostos diariamente a situações de conflito, pressão, riscos e, na maioria das vezes, à solidão durante o cumprimento das diligências, esses profissionais enfrentam fatores que podem provocar impactos significativos e cumulativos sobre a saúde emocional.
Segundo a psicóloga da Assojaf-RS, Carine Peixoto, essas características não aparecem de maneira isolada. A partir de uma pesquisa desenvolvida por ela com Oficiais de Justiça e também da experiência no atendimento aos associados, Carine explica que os diferentes fatores presentes na rotina profissional acabam se somando e se retroalimentando.
De acordo com a psicóloga, o conflito e a exposição ao risco mantêm constantemente acionado o sistema de alerta do organismo. O Oficial de Justiça precisa permanecer em estado de vigilância para se proteger e, quando essa condição se prolonga durante anos, sem espaços adequados de recuperação e elaboração das experiências vivenciadas, pode favorecer o sofrimento e o adoecimento psíquico.
A solidão nas diligências é outro fator destacado. Diferentemente de outras categorias que também lidam com situações de risco, o Oficial de Justiça costuma enfrentar sozinho momentos de tensão e hostilidade, sem uma equipe próxima para compartilhar a experiência e processar emocionalmente o ocorrido.
Esse acúmulo silencioso, explica Carine, pode contribuir para quadros de esgotamento, sintomas depressivos e, em situações mais graves, transtorno de estresse pós-traumático. Soma-se a isso o fato de o Oficial de Justiça exercer uma função que frequentemente envolve a comunicação e o cumprimento de decisões que geram resistência e hostilidade.
Sinais precisam ser observados
Neste Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, a psicóloga alerta que alguns sinais de sofrimento emocional podem ser sutis no início e, justamente por isso, precisam ser observados pelo próprio servidor, colegas e familiares.
Irritabilidade incomum, isolamento progressivo, dificuldades para dormir, exaustão que não desaparece mesmo após o descanso, distanciamento emocional em relação ao trabalho e às pessoas e perda de interesse por atividades antes prazerosas estão entre os sinais de atenção.
Falas como “não aguento mais”, “não sirvo mais pra isso” ou manifestações de que a pessoa se sente um peso para os outros não devem ser ignoradas. Para Carine, essas manifestações devem ser entendidas como um convite para o diálogo e o acolhimento.
Embora ainda existam poucos dados epidemiológicos específicos sobre o segmento no Brasil, os estudos desenvolvidos pela psicóloga apontam dados preocupantes sobre o adoecimento psíquico dos Oficiais de Justiça. Entre os problemas observados estão sintomas depressivos, transtornos de ansiedade, Síndrome de Burnout e sintomas de estresse pós-traumático, especialmente diante de exposições intensas ou repetidas à violência. Para Carine, esse cenário reforça a necessidade de investimento tanto em pesquisas quanto em ações preventivas de saúde mental.
Buscar ajuda também é cuidado profissional
Outro desafio é romper a resistência que ainda existe em relação à procura por atendimento psicológico. De acordo com Carine, esse tabu muitas vezes está relacionado à ideia de que pedir ajuda representa fraqueza, especialmente em profissões nas quais se exige autoridade e controle diante de situações adversas.
A psicóloga defende uma mudança nessa percepção. Assim como o acompanhamento da saúde física faz parte da rotina de prevenção, o suporte psicológico deve ser encarado como uma forma de preservar a capacidade de exercer a profissão e cuidar da própria qualidade de vida.
Nesse sentido, Carine Peixoto destaca a importância das ações desenvolvidas pela Assojaf-RS, que disponibiliza atendimento psicológico semanal aos associados. “Quando esse cuidado é oferecido de maneira recorrente pela própria entidade representativa, transmite-se a mensagem de que procurar apoio psicológico é algo legítimo e esperado, e não motivo de vergonha”, afirma.
A atenção à saúde e à qualidade de vida dos Oficiais de Justiça está entre as prioridades da atual diretoria da Assojaf. Entre as iniciativas implementadas está justamente a oferta de sessões semanais, nas tardes das terças-feiras, de atendimento psicológico aos associados, proporcionando um espaço permanente de acolhimento e cuidado.
Para Carine, existe uma diferença fundamental entre oferecer suporte contínuo e agir apenas quando uma crise já está instalada. “A diferença entre suporte permanente e daqueles apenas em crise é, na prática, a diferença entre prevenção e a expressão ‘apagar incêndio’”.
O acompanhamento contínuo permite identificar e trabalhar situações de desgaste antes que evoluam para quadros mais graves. Além disso, a existência permanente desse espaço de acolhimento demonstra ao Oficial de Justiça que sua saúde mental importa durante todo o tempo, fortalecendo a confiança necessária para que a ajuda seja procurada antes de uma situação de ruptura.
“Você não precisa esperar estar no limite para merecer cuidado”, destaca.
A mensagem da psicóloga neste 10 de setembro é especialmente direcionada aos Oficiais de Justiça que estejam enfrentando sobrecarga, ansiedade, esgotamento, solidão ou qualquer outra forma de sofrimento emocional e ainda não tenham procurado ajuda.
Carine ressalta que buscar apoio não deve ser encarado como um último recurso, utilizado somente quando a situação se torna insustentável, mas como uma atitude responsável de cuidado com a própria vida e com a atividade profissional.
Além do atendimento disponibilizado pela Assojaf-RS, a psicóloga lembra da importância da rede de apoio formada por colegas e familiares. Em situações de sofrimento, também é possível buscar o Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo telefone 188, disponível 24 horas para quem precisar conversar.
“Dar o primeiro passo, mesmo pequeno, já é o começo de uma mudança real”, finaliza Carine Peixoto.
A Assojaf-RS reafirma, neste Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, o compromisso da atual diretoria com ações que promovam saúde, acolhimento e qualidade de vida. Os associados que desejarem atendimento com a psicóloga da Associação devem entrar em contato com a secretaria para o agendamento.
Cuidar de quem diariamente leva a Justiça até a população também significa reconhecer que a saúde mental dos Oficiais de Justiça precisa ser uma prioridade permanente.
Da assessoria de imprensa, Caroline P. Colombo